• Campo - um podcast de antropologia

EP#1.1 - Mara Viveros Vigoya

Atualizado: Fev 15


Créditos da imagem: Johann Moritz Rugendas, Transporte de um comboio de negros, 1835. Acervo Instituto Ricardo Brennand

Colonialismo, racismo e antirracismo


Paula Lacerda, professora de Antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Carolina Parreiras, pesquisadora de pós-doutorado do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)


Em 2020, a professora colombiana Mara Viveros Vigoya proferiu duas conferências em eventos remotos realizados a partir de instituições brasileiras. Na primeira delas, a aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Antropologia, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a pesquisadora apresentou análises sobre as contribuições do escritor e líder político Aimé Cesaire à luz das perspectivas feministas latino-americanas e descoloniais. Na segunda, realizada no âmbito da 32ª Reunião Brasileira de Antropologia, em diálogo com o sociólogo francês Eric Fassin, Mara Viveros Vigoya discute racismo e anti-racismo a partir da América Latina.


Na primeira conferência, com a proposta de aproximar as contribuições da obra de Cesaire aos debates sobre o que hoje é conhecido como “colonialidade”, Mara Vigoya organiza em três tópicos a análise da obra “Discurso sobre o colonialismo”, de 1955. Segundo a conferencista, a crítica ao eurocentrismo, a proposta política da descolonização e as considerações sobre as tensões de demandas por direitos e igualdade, são temas presentes na obra do autor que antecipam algumas das reflexões apresentadas algumas décadas depois por Aníbal Quijano e Walter Mignolo. No contexto latino-americano e fora dele, Quijano e Mignolo são referências para os estudos descoloniais, relacionando colonialismo e projeto de modernidade. Para os autores, o colonialismo produz efeitos sobre as dimensões subjetivas, acadêmicas e políticas de países latino-americanos, que são as conhecidas formas de colonialidade do ser, do saber e do poder. Considerando que a experiência de Cesaire – como homem negro nascido na Martinica, departamento ultramarino francês – é constitutiva dos seus escritos e da sua atuação política, Mara Vigoya afirma que “seu pensamento vinha do outro lado da diferença colonial”. Assim, como nos escritos das feministas negras dos Estados Unidos, entre as quais Patricia Hill Collins, não há pensamento sem experiência. Contudo, Mara Viveros Vigoya também aponta lacunas e sente ausências na obra do autor. As relações de gênero não foram abordadas como mais uma dimensão da colonialidade, e também, segundo a conferencista, é notável uma certa inocência em achar que a descolonização resolveria todos os problemas dos países colonizados.


Na segunda conferência, Mara Viveros Vigoya trabalha a cor como um signo por meio do qual se constroem relações de diferença e, consequentemente, de poder. Considerando as sociedades – colombianas, brasileiras e latino-americanas de maneira geral - como pigmentocráticas, a conferencista afirma que a existência de racismo e desigualdade é o que permite a estruturação de privilégios e seguranças. A partir de sua experiência situada, Mara Viveros Vigoya discute as “cores” do racismo no país e na améfrica ladina, citando Lélia Gonzalez em sua crítica à imaginação colonial que privilegiou influências brancas e europeias em detrimento da presença africana. A partir disso, a conferencista realiza uma provocativa análise sobre a diversidade, heterogeneidade e sobre os diferentes efeitos das práticas consideradas “anti-racistas” em países amefricanos. Considerando o Brasil como um país inspirador para os outros países da região, especialmente pela adoção de políticas afirmativas enquanto Equador, Bolívia e Colômbia afirmavam a “multiculturalidade” como um valor vago e sem efeitos concretos em políticas, Mara Viveros Vigoya afirma que nos últimos dez anos o enfrentamento ao racismo vem sendo considerado como parte dos compromissos de estado. Ainda assim, medidas e propostas que apenas enunciam o “combate ao racismo” sem descrever exatamente como, são frequentes. As menos frequentes, e também as mais eficazes, seriam as medidas que atacam o racismo estrutural das sociedades, promovendo ações de transformação social, dentre as quais as ações afirmativas surgem novamente como exemplo. Por fim, a partir de suas experiências em práticas político-acadêmicas, Mara Viveros Vigoya reflete sobre os limites e as possibilidades do anti-racismo nas práticas acadêmicas. Em uma das experiências descritas, a conferencista afirma que a presença de uma mulher indígena em uma das equipes de pesquisa tornou mais plurais os debates sobre as formas de classismo, sexismo e anti-racismo. Para a conferencista, as experiências representaram oportunidades de compreender na prática a vivência da interseccionalidade e seus desafios.


Como citar esse post [ISO690/2010]:

LACERDA, P. e PARREIRAS, C. Mara Viveros Vigoya: Colonialismo, racismo e antirracismo [online]. CAMPO - um podcast de antropologia, 2021 [visto em .....]. Disponível em: https://www.podcastdeantropologia.com.br/post/ep-1-1-mara-viveros-vigoya


O link para as duas conferências segue abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=feW1dZi86fg&t=3512s

https://www.youtube.com/watch?v=66dSqagPWjw&t=491s


Referências:


VIGOYA, Mara Viveros. La sexualización de la raza y la racialización de la sexualidade en el contexto latinoamericano actual. In: CAREAGA, Gloria (org.) Memorias del 1er Encuentro Latinoamericano y del Caribe. La sexualidade frente a la sociedad. México, 2008. Pp. 168-198.


VIGOYA, Mara Viveros. Entrevista com Mara Viveros Vigoya, por Renata Hiller [2009]. Disponível via http://www.clam.org.br/uploads/arquivo/Entrevista%20con%20Mara%20Viveros%20Vigoya.pdf. Acesso em 22 dez 2020.


WADE, Peter. Race and Sexuality in Latin America. London, Pluto Press, 2009.


Créditos: Pesquisa, produção e apresentação: Paula Lacerda.


Acesse abaixo a transcrição deste episódio.

Transcrição_Mara
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