• Campo - um podcast de antropologia

EP#1.2 - Judith Butler

Atualizado: Fev 15


Crédito da foto: Carol Parreiras, Queer March - Reclaim Pride (NYC), 2019.

Não-violência, interdependência e os desafios da luta política

Carolina Parreiras, pesquisadora de pós-doutorado do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Paula Lacerda, professora de Antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)


Butler lançou seu novo livro – The force of non-violence – em fevereiro de 2020. Nesta obra, a autora retoma de maneira contundente alguns dos temas sobre os quais vem refletindo pelo menos desde Vidas Precárias. Entre tais temas, se destacam a retomada do debate sobre vulnerabilidade e precariedades, a ideia de interdependência e laços sociais, os limites e desafios da discussão sobre violência no debate público. E, especificamente, a autora reflete sobre a noção de não-violência, buscando retirá-la de um debate moral e de um entendimento que diz respeito apenas ao nível da consciência individual.

É interessante notar os pontos de partida de Butler para realizar esta empreitada. O primeiro deles é a retomada do importante ensaio de Walter Benjamin – “Para uma crítica da violência”. Este texto, escrito ainda nos anos 20, traz uma questão fundamental, salientada por Butler, que diz respeito à instrumentalidade da violência. Sobre esse aspecto, a autora parte do questionamento sobre a existência de formas aceitáveis de violência, para apontar que essa lógica instrumental representa algo que já determina de antemão o que é violência. A autora então lança as perguntas que guiam a coleção de ensaios que compõem o livro: podem a violência e a não-violência ser pensadas para além do modelo instrumentalista? A partir dessas provocações, quais são as possiblidades éticas e políticas que se apresentam para o debate?

É importante frisar a concepção de violência trazida pela autora. No debate público, violência é uma noção “lábil”, que desliza, é escorregadia e, nesse sentido, produz uma semântica que é apropriada de modos bastante distintos pelos polos deste debate (e aqui nos parece que Butler dirige a provocação para a esquerda e o uso feito da ideia de “autodefesa”, que justificaria o uso de práticas interpretadas como violentas para a luta política). Fundamental para o argumento de Butler é a ideia de interdependência, trabalhada por ela anteriormente em obras como Quadros de Guerra e Corpos em aliança e a política das ruas e também presente em reflexões mais recentes, que tiveram como mote a pandemia do Covid-19, disponíveis aqui e aqui. A violência seria, portanto, um ataque à nossa interdependência. Ainda que se dirija a indivíduos, representa, na realidade, um ataque aos laços sociais e uma quebra na abertura dos sujeitos (e de seus corpos) à alteridade. Se desejamos avançar no debate sobre não-violência e igualdade, sobre as muitas relações de vulnerabilidade e precariedade que delimitam vidas vivíveis ou não, passíveis de luto ou não, isso deve ser feito pensando em interdependência, que é constitutiva dos sujeitos, do “mundo social” e dos corpos que ocupam o espaço público em “assembleia”. Assim, não-violência não representa inação ou falha da ação, mas é uma “reivindicação de vida, uma afirmação viva, uma reivindicação feita pelo discurso, pelo gesto e pela ação por meio das redes, acampamentos e assembleias” (p. 24).

Por fim, se queremos uma “igualdade radical” ou sair da “zonas de não-ser” propostas por Fanon e citadas por Butler, devemos ter como ideal uma ética e uma política da não-violência que saia do individualismo, que reivindique vidas igualmente vivíveis e passíveis de luto e que considere a violência em termos da sua potencialidade de destruição de laços sociais e, consequentemente, assuma nossa interdependência.

Como citar esse post [ISO690/2010]:

PARREIRAS, C. e LACERDA, P. Judith Butler: Não-violência, interdependência e os desafios da luta política[online]. CAMPO - um podcast de antropologia, 2021 [visto em .....]. Disponível em: https://www.podcastdeantropologia.com.br/post/ep-1-2-judith-butler


Referências

BUTLER, Judith. Atos performáticos e a formação dos gêneros: um ensaio sobre fenomenologia e teoria feminista. In.: Buarque de Hollanda, Heloisa (Org.) Pensamento Feminista: Conceitos Fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019. Pp. 213-230.


BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do sexo. In: LOURO, Guacira L. O Corpo Educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. Disponível em < https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/1230/Guacira-Lopes-Louro-O-Corpo-Educado-pdf-rev.pdf?sequence=1>.


BUTLER, Judith. O clamor de Antígona: parentesco entre a vida e a morte. Florianópolis, UFCS, 2014.


BUTLER, Judith. The force of non-violence. An Ethico-Political Bind. London/New York: Verso, 2020.


BUTLER, Judith. Quadros de Guerra. Quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.


BUTLER, Judith. Vida Precária: os poderes do luto e da violência. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.


MOMBAÇA, Jota. Rumo a uma redistribuição desobediente de gênero e anticolonial da violência. Oficina de Imaginação Política, Dez, 2016. Disponível via: https://issuu.com/amilcarpacker/docs/rumo_a_uma_redistribuic__a__o_da_vi Acesso em 21 dez. 2020.


PELÚCIO, Larissa. Traduções e torções ou o que se quer dizer quando dizemos queer no Brasil? Revista Periódicus, v1, n.1, maio-out 2014.


PRECIADO, Paul. Manifesto Contrasexual. Políticas subversivas de identidade sexual. São Paulo: n-1 edições, 2014.


RUBIN, Gayle. O tráfico de mulheres: notas sobre a “economia política” do sexo. Recife: Editora SOS Corpo, 1993. Disponível cia: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/1919 Acesso em 21 dez. 2020.


Créditos:

Pesquisa, produção e apresentação: Paula Lacerda


Acesse abaixo a transcrição deste episódio.

Transcrição_Butler
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