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EP#1.4 - Veena Das

Atualizado: Fev 15


DAS, V. Textures of the Ordinary. Doing Anthropology after Wittgenstein. New York: Fordham, 2020. A citação no original: “The love of anthropology may yet turn out to be na affair in which when I reach bedrock I do not break through the resistance of the other. But in this gesture of waiting, I allow the knowledge of the other to mark me” (p. 57). Crédito da foto: Carolina Parreiras, 2020.

A tessitura do ordinário e o amor à antropologia

Carolina Parreiras, pesquisadora de pós-doutorado do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Paula Lacerda, professora de Antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)


Em maio de 2020, foi lançado o novo livro de Veena Das: Textures of the Ordinary. Doing Anthropology after Wittgenstein. Assim como em obras anteriores, imediatamente chamam a atenção as aproximações que a autora faz entre antropologia e filosofia, tomando como base os pensamentos de Wittgenstein e de Stanley Cavell (a quem Das dedica o livro, pontuando o quanto a escrita de Cavell fez com que ela existisse). Para além da retomada deste tema, vemos, em todos os capítulos que compõem a obra, uma preocupação com o ordinário e com o cotidiano, entendido como o lugar onde se aciona a vida do outro. Desse modo, é na trama cotidiana da vida que Veena Das busca encontrar o ordinário, trazendo para o diálogo os autores citados e retomando seu material de três décadas de pesquisa de campo com famílias em Delhi.

Coleção. Esta palavra, presente desde o Prefácio, talvez seja um dos modos de resumir o livro. Isto porque a autora recorre a algo que é constante em sua obra: a retomada de narrativas, de lugares, de situações de campo. Assim, figuras reaparecem, são recontadas, reinterpretadas e reinventadas, no que podemos desconfiar ser uma forma de dar resposta à questão que ela mesma se coloca de partida: o que fazer quando parece impossível ir adiante, quando somos “parados no meio” e oferecemos mais dúvidas, silêncios e reticências do que qualquer explicação? Para tentar dar conta desse questionamento, Das propõe criar uma "treliça", um álbum que revisita as figuras e fragmentos. Uma coleção.

O livro é definido por ela também como uma autobiografia, na medida em que, ao buscar as texturas que conformam o ordinário, estas “rotas de conhecimento” – as “microhistórias” e “microgeografias”, as palavras que surgem sem que se espere ou mesmo os modos cotidianos de revelar e ocultar – ela encontra sua própria voz. É nas palavras “imploradas, emprestadas e roubadas” do outro que Das confessa ter se tornado antropóloga (ou, como ela mesma diz, uma versão possível do que é fazer antropologia).

No entanto, o livro também poderia ser resumido de outra forma, o que atesta o vigor do pensamento da autora. Ao finalizar o primeiro capítulo, Das escreve: “O amor pela antropologia pode ainda se revelar como um caso em que, quando alcanço o alicerce, não rompo a resistência do outro. Mas, neste gesto de espera, permito que o conhecimento do outro me marque” (p. 57, tradução nossa). Este amor à antropologia, um amor que é definido pela própria Veena Das como “uma devoção ao mundo”, é o que permite encontrar o outro e ser marcado por ele. É, portanto, um modo de entender o cotidiano e de “autoconhecimento”.

Como citar esse post [ISO690/2010]:

PARREIRAS, C. e LACERDA, P. Veena Das: A tessitura do ordinário e o amor à antropologia [online]. CAMPO - um podcast de antropologia, 2021 [visto em .....]. Disponível em: https://www.podcastdeantropologia.com.br/post/ep-1-4-veena-das


Referências:

Das, Veena e Poole, Deborah (Ed.). Anthropology in the margins of the State. Oxford/New York: Oxford University Press, 2004.


Das, Veena. “O ato de testemunhar: violência, gênero e subjetividade”. Cadernos Pagu, n. 37, 2011. Pp. 9-41.


Das, Veena. Affliction Health, disease, poverty.New York: Fordham, 2015.


Das, Veena. Vidas e Palavras. A violência e sua descida ao ordinário. São Paulo: Unifesp, 2020.


Das, Veena. Textures of the ordinary. Doing Anthropology after Wittgenstein. New York: Fordham, 2020.


Das, Veena. “Encarando a Covid-19:Meu lugar sem esperança ou desespero”. Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, Reflexões na Pandemia, 2020. Pp. 1-8.


Lacerda, Paula. 2018. “Veena Das: conceitos e propostas”. Mimeo.



Créditos:

Pesquisa, produção e apresentação: Paula Lacerda


Acesse abaixo a transcrição deste episódio.


transcrição Das
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