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EP#2.3 - Ochy Curiel


Créditos: Paula Lacerda, Córdoba, 2018

Heterossexualidade, nação e violência


Paula Lacerda, professora de Antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Carolina Parreiras, pesquisadora de pós-doutorado do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)


Comprometida com uma “antropologia da modernidade”, no sentido proposto por Arturo Escobar, Ochy Curiel realiza uma análise etnográfica da Constituição Colombiana de 1991. Com isso, a autora pretende romper com a perspectiva colonial da Antropologia, que tradicionalmente se direciona “aos outros” - subalternos e integrantes de minorias sociais. Assim, em "La Nación Heterosexual", a autora busca compreender o histórico e as relações de poder que resultaram na Constituição de 1991. Para a autora, apesar da incorporação de negros e indígenas no texto da lei, enquanto detentores de direitos, o marco da heterossexualidade mantém o sentido de proposição de uma hegemonia para além da diversidade de um povo, de uma nação, de um coletivo de pessoas.


Para Curiel, a heterossexualidade é mais do que um regime sexual, é o regime político, por excelência, da nação. O funcionamento das “heteronações” implica em disponibilizar corpos das mulheres para a produção de lucro, seja como força de trabalho não remunerada ou sub-remunerada, seja no apagamento de desigualdades que possibilitam a realização de processos políticos em seus vários níveis.


“Quantas mulheres tiveram que fazer comida, lavar e passar os trajes formais da maioria dos constituintes (incluindo os dos indígenas e setores progressistas) para que eles pudessem definir os termos pelos quais se reformaria a constituição e se definiria uma nova nação? Sobre quem recaiu o cuidado dos seus filhos e filhas, se tivessem? Quantas secretárias tiveram que redigir as atas dos seus discursos? Quantas trabalhadoras domésticas tiveram que servir o café nos momentos de recesso e limpar os salões onde ocorriam as sessões? Quantas mulheres tiveram que satisfazer sexualmente os homens constituintes?” (Curiel, 2013, p. 107, tradução nossa).


Mais recentemente, a autora vem relacionando militarismo, violência e heterossexualidade a partir do caso do conflito armado na Colômbia, país onde vive. Para Curiel, nesses lugares onde a guerra está presente o tempo todo, paramilitares, guerrilha e mesmo o exército utilizam os corpos das mulheres de forma muito semelhante (violações, apropriação da força de trabalho, assassinatos), o que aponta para questões estruturais e de longa duração. Assim, observamos que a “antropologia da modernidade”, a qual a autora se propõe realizar, não é incompatível com a compreensão e análise sobre os efeitos na vida de mulheres, lésbicas, indígenas e empobrecidas, de maneira geral.


Como citar esse post [ISO690/2010]:

LACERDA, P. e PARREIRAS, C. Ochy Curiel: Heterossexualidade, nação e violência. [online]. CAMPO - um podcast de antropologia, 2021 [visto em .....]. Disponível em: https://www.podcastdeantropologia.com.br/post/ep-2-3-ochy-curiel


Referências:


CURIEL, Ochy. La Nación Heterosexual: análisis del discurso jurídico y el regímen heterosexual desde la antropología de la dominación. Bogotá: Brecha Lésbica, en la frontera, 2013.


______: Identidades essencialistas o construcción de identidades políticas: el dilema de las feministas negras. Otras miradas, v.2, n.2, 2002, pp. 96-113.


______: Superando la interseccionalidade de categorias por la construcción de um proyecto político feminista radical. In: WADE, Peter; GIRALDO, Fernando Urrea; VIGOYA, Mara Viveros (Eds). Raza, etnicidad y sexualidades. Ciudadanía y multiculturalismo em América Latina. Bogotá: Centro de Estudios Sociales, Escuela de Estudios de Género, 2008. Pp. 461-484.


Entrevistas:

TEIXEIRA, Analba Brazão; SILVA, Ariana Mara; FIGUEIREDO, Ângela. Um diálogo decolonial na colonial cidade de Cachoeira/BA. Entrevista com Ochy Curiel. Cadernos de Gênero e Diversidade, v.3, n.4, 2017. Disponível via: https://periodicos.ufba.br/index.php/cadgendiv/article/download/24674/15431 Acesso em 3 mar. 2021, pp. 105-120.


PROCÓPIO DA SILVA, Ana Paula; ALMEIDA, Magali da Silva; GONÇALVES, Renata. Ochy Curiel e o feminismo decolonial. Revista Em Pauta, n.56, v. 18, 2020. Disponível via: https://www.e-publicacoes.uerj.br/ojs/index.php/revistaempauta/article/view/52020 Acesso em 3 mar. 2021, pp. 269-277.


LA GÜIRA. Feminismo decolonial com Ochy Curiel – ESPECIAL #14. Podcast. Disponível via: https://open.spotify.com/episode/1WzcGwNTJsgTzGxfVCY8RH?si=tlAhHeefQ_eMR85rmGZ_kQ Acesso em 3 mar. 2021.


Créditos:

Concepção, pesquisa e apresentação: Paula Lacerda

Edição, montagem e pesquisa: Carol Parreiras

Vinheta de transição 1: autoria de aswali, disponível em looperman.com

Vinheta de abertura e encerramento: carloscarty, disponível sob licença [CC] em looperman.com

Trilha sonora: Ae Marité, de Ochy Curiel. Agradecemos à autora pela autorização para uso no podcast. Disponível em: https://youtu.be/8CLI0ZYAszw


Acesse abaixo a transcrição deste episódio.


Transcrição_Curiel
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