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EP#2.4 - Zora Hurston


Zora Hurston
Zora Hurston, retrato de meio corpo, tocando o hountar ou mama drum (tipo de tambor), 1937. Disponível em The Library of Congress.

Financiadores e “madrinhas” na trajetória de Zora Hurston


Paula Lacerda, professora de Antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Carolina Parreiras, pesquisadora de pós-doutorado do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)


A Charlotte Mason, minha madrinha, e a única mãe de todos os primitivos, que com os Deuses no Espaço está preocupada com os corações dos iletrados. (Tradução nossa)


Essa é a dedicatória do livro “Barracoon: the story of the last Black Cargo”, escrito por Zora Hurston, em 1931, e que foi publicada apenas em 2018. Charlotte Osgood Mason (1854-1946) foi uma socialite e filantropa norte-americana, conhecida por apoiar artistas e escritores associados ao movimento conhecido como Renascimento do Harlem, entre as quais, Zora Hurston. O escritor Alain Locke foi quem colocou Hurston e Mason em contato, com a proposta de realização de uma pesquisa que embasasse uma ópera que seria a “primeira interpretação autêntica da vida popular negra”. Foi dessa forma que Hurston conseguiu a quantia de duzentos dólares por mês, o que a permitiu realizar pesquisa de campo na Flórida. As regras do contrato firmado, contudo, proibiam Hurston de divulgar o material em qualquer formato, e isso dificultou a comunicação e o diálogo entre a antropóloga e seu supervisor na Universidade de Columbia, Franz Boas.


A relação de Hurston com Mason e Boas, segundo os aportes de Cotera (2008) merece ser observada com mais atenção. Se, por um lado, as regras impostas por Mason eram abusivas, por outro lado, Hurston estava mais livre para realizar a pesquisa se afastando dos métodos defendidos por Franz Boas. De fato, a metodologia boasiana, calcada no distanciamento entre pesquisador e pesquisado, não era compatível com o tipo de pesquisa que Hurston estava segura em realizar.


Em 1932, quando já havia reunido um conjunto considerável de dados e materiais sobre o Hoodoo na América, Hurston solicitou uma bolsa de estudos junto ao Museu Guggenheim, indicando Franz Boas e Ruth Benedict como suas referências na Universidade de Columbia. A “recomendação” de Boas (na verdade, uma anti-recomendação), informava que Hurston era uma “observadora muito boa”, mas sua metodologia era “mais jornalística do que científica” e finalizava sugerindo que talvez Hurston não tivesse o “calibre” para uma bolsa naquela instituição. Benedict, por sua vez, sugeriu que Hurston poderia obter financiamento com algum patrono da cultura negra (Cotera, 2008: 89-90).


Ainda que a relação com a “madrinha” Charlotte Osgood Mason tenha, de fato, permitido que Hurston realizasse sua pesquisa com relativa independência dos preceitos e exigências de Franz Boas, a precariedade da posição da antropóloga é algo a ser levado em consideração, sobretudo se compararmos com a posição de outros/as estudantes de Columbia nesse mesmo período. Lembremos que Hurston nunca obteve o título de doutorado em Antropologia. Compreendendo a posição de quem necessitava de recursos e não contava com o apoio de seus contatos na universidade, a dedicatória de Hurston pode ser compreendida como uma deferência um tanto irônica a quem mantinha ações de promoção da cultura negra sem se comprometer com qualquer projeto de transformação social – apenas se “preocupando com o coração dos iletrados”.


Referências:


BASQUES, Messias. Zora Houston e as luzes negras das Ciências Sociais. Ayé: Revista de Antropologia, n1. V. 1, 2019, pp. 102-105. Disponível via: https://revistas.unilab.edu.br/index.php/Antropologia/article/view/288/141 Acesso 16 mar 2021.


______: Diários de Antropologia Griô: etnografia e literatura na obra de Zora Hurston. Anthropológicas, ano 23, 30(2), 2019, pp. 316-326. Disponível via: https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaanthropologicas/article/view/244086/35030 Acesso 16 mar 2021.


BEMERGUY, Telma. Lendo Zora Hurston: a obra Mules and Man e sua relação com a teoria e a história da antropologia. Mimeo, 2015.


COTERA, María Eugênia. Native speakers: Ella Deloria, Zora Neale Hurston, Jovita González and the poetics of culture. Texas, University of Texas Press, 2008.


ECHAZÚ, G. CABANILLAS, N.; ERICKSON, S. F.; NASCIMENTO, F.; FREIRE, F. C.; BARBOSA, V. D.; COSTA, M. A tradução de Zora Neale Hurston para o cânone antropológico: Práticas de extensão desde uma perspectiva feminista e interseccional. MUTATIS MUTANDIS (MEDELLIN. 2008), v. 13, 2020, p. 228-254. Disponível via: https://revistas.udea.edu.co/index.php/mutatismutandis/article/download/341225/20803492/ Acesso 16 mar 2021.


HURSTON, Zora. “O que os editores brancos não publicarão”. Ayé: Revista de Antropologia, n1. V. 1, 2019, pp. 106-111. Disponível https://revistas.unilab.edu.br/index.php/Antropologia/article/view/288/141 Acesso 16 mar 2021.


______: Mules and Men. New York, Harper Collins, 2008.


______: Barracoon: the story of the last “black cargo”. New York, Amistad and Harper Collins Publishers, 2018.


LOURENÇO, Vanessa Cândido. Antropóloga, Mulher e Negra: sobre a trajetória de Zora Neale Hurston. Trabalho de Conclusão. Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, 2019. Disponível via: https://repositorio.unifesp.br/handle/11600/51850 Acesso 16 mar 2021.


RAMOS, Ana Carolina; TITONELI, Bruner; SAFATLE, Yazmin; FONSECA, Marina. Zora Hurston e as negras antropologias. Conversas da Kata, 28 de setembro de 2020. Podcast, Áudio, 55’. Disponível via: https://open.spotify.com/episode/0yeT6jzcriQLC1f6TTNbsR?si=C0nDFqcNQhujYX2UMjcSJQ Acesso em 16 mar 2021.


SALAMONE, Frank. His eyes were watching her: Papa Franz Boas, Zora Neale Hurston and Anthropology. Anthropos, n. 109, 2014, pp. 217-224.


WALKER, Alice. In search of Zora Neale Hurston. Ms Magazine, 1975. Disponível via: https://www.allisonbolah.com/site_resources/reading_list/Walker_In_Search_of_Zora.pdf Acesso 16 mar 2021.


Créditos:

Concepção, pesquisa e apresentação: Paula Lacerda

Edição, montagem e pesquisa: Carol Parreiras

Vinheta de abertura e encerramento: carloscarty, disponível sob licença [CC] em looperman.com

Trilha sonora: Halimuhfack e The Crow Dance, por Zora Hurston, disponível em domínio público na Library of Congress.


Acesse abaixo a transcrição deste episódio.


transcrição_Hurston
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