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EP#2.5 - Monique Wittig


Monique Wittig (ph. Collette Geoffrey). Succession littéraire de Monique Wittig, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons

Monique Wittig e os estudos queer

Carolina Parreiras, pesquisadora de pós-doutorado do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Paula Lacerda, professora de Antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)


O pensamento de Monique Wittig foi referência fundamental para diversas autoras e autores associados à teoria queer. Para citar apenas alguns exemplos, encontramos a inspiração de Wittig em Paul Preciado, Gayle Rubin, Jack Halberstam e Judith Butler. Preciado, por exemplo, além de dedicar a ela um artigo e o livro “O Manifesto Contrassexual”, afirma que seu pensamento é “um filho” das reflexões de Wittig. Jack Halberstam, no Prefácio da edição norte-americana do Manifesto, reconhece essa espécie de filiação, mostrando como a “butch contrassexual” portadora de dildo de Preciado, poderia perfeitamente ter saído do livro “As Guerrilheiras”, existindo fora do “contrato heterossexual”.

O conceito de contrassexualidade de Preciado se aproxima da análise de Wittig a respeito da heterossexualidade, definida como um regime político. Para Wittig, o pensamento hétero, além de manter algo inescapável da natureza, oferece uma “interpretação totalizante” de toda vida social e isto se converte em formas diversas de opressão e violência. No “Manifesto Contrassexual”, de Preciado, encontramos afirmações sobre os novos corpos – possíveis, imaginados e desafiadores - desse regime, que seriam chamados de pós-corpos ou “wittigs”. Em sua interpretação da famosa frase da autora – “as lésbicas não são mulheres” – Preciado ressalta que Wittig não somente afirma o caráter construído do gênero, mas abre espaço para o próprio questionamento político da heterossexualidade enquanto norma e natureza impostas. A enunciação dessa imposição é o primeiro passo para interromper da reprodução desse regime heterossexual. Essas dimensões apontam para o caráter contestador e revolucionário do pensamento de Monique Wittig, que foge às classificações rápidas e que, ainda hoje, é relevante para os esforços políticos e epistemológicos de colocar em questão as normatividades, as convenções e as matrizes de gênero e sexualidade. Por isso, os conceitos, temas e afirmações da autora foram e são tão inspiradores para a teoria queer.


Referências:


FRANÇA, Caroline. “O futuro é feminino? (ou sapatão?): desdobramentos do Lesbianismo Político”. In.: Alves, Bárbara Elcimar dos Reis; Fernandes, Felipe Bruno Martins (Orgs.) Pensamento Lésbico Contemporâneo: decolonialidade, memória, família, educação, política e artes. Florianópolis: Tribo da Ilha, 2021. Pp. 170-183.


HALBERSTAM, Jack. "We Are the Revolution! Or, the Power of the Prosthesis". In: Preciado, Paul. Countersexual Manifesto. New York: Columbia University Press 2018.


LESSA, Patrícia. O feminismo-lesbiano em Monique Wittig. Revista Ártemis, vol. 7, dez 2007. Pp. 93-100.


PRECIADO, Beatriz. Manifesto Contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual. São Paulo: n-1 edições, 2014.


RIBEIRO, Jéssica Akemi Kawano. “A Crítica Lésbica ao Heterofeminismo: Uma análise da teoria de Monique Wittig”. In.: Alves, Bárbara Elcimar dos Reis; Fernandes, Felipe Bruno Martins (Orgs.) Pensamento Lésbico Contemporâneo: decolonialidade, memória, família, educação, política e artes. Florianópolis: Tribo da Ilha, 2021. Pp. 148-155.


SALDANHA, Mônica. “Um conceito de deslocamentos: notas para uma leitura decolonial de The Straight Mind”. In.: Alves, Bárbara Elcimar dos Reis; Fernandes, Felipe Bruno Martins (Orgs.) Pensamento Lésbico Contemporâneo: decolonialidade, memória, família, educação, política e artes. Florianópolis: Tribo da Ilha, 2021. Pp. 156-169.


WITTIG, Monique. El pensamento heterosexual y otros ensayos. Barcelona: Egales, 1992.


WITTIG, Monique. As Guerrilheiras. São Paulo: Ubu Editora, 2019.


Créditos:

Concepção, pesquisa e apresentação: Paula Lacerda

Edição, montagem e pesquisa: Carol Parreiras

Vinheta de abertura e encerramento: carloscarty, disponível sob licença [CC] em looperman.com

Vinheta de transição 1: por aswali, disponível em looperman.com

Vinheta de transição 2: autoria de harri, com pequena adaptação para o ep., disponível em Freesound.org

Trilha sonora: - "Sounds of the Sun", captado pela NASA e disponível em https://www.nasa.gov/feature/goddard/2018/sounds-of-the-sun

- "Ambience, Day Wildlife, A.wav", por InspectorJ (www.jshaw.co.uk) em Freesound.org

- "Running into lake", por Robinhood76 em Freesound.org

- "Spider Chattering", por spookymodem em Freesound.org

- "Epic Emotional Strings Staccato I Cinematic", por SuperSouperBeatz em looperman.com

- "The Scape", por Timmoor, em PixaBay


Acesse abaixo a transcrição deste episódio.


transcrição_Wittig
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