• Campo - um podcast de antropologia

EP Bônus - Gayatri Spivak

Atualizado: Fev 15


Capa do Volume IX do Subaltern Studies. Imagem disponível nos sites de venda da obra

Spivak e o Grupo de Estudos Subalternos


Paula Lacerda, professora de Antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Carolina Parreiras, pesquisadora de pós-doutorado do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)


A conclusão do provocativo ensaio de Spivak “Pode o subalterno falar?” é a negativa da questão proposta. Não que o subalterno não possa falar. Claro, não se trata de uma impossibilidade fisiológica. Mas também não é uma escolha pelo silêncio. Antes disso, trata-se, como argumenta a autora, da inexistência de repertórios para a compreensão da fala do subalterno, especialmente das subalternas. A inexistência política desses sujeitos faz com que sua voz não seja conhecida porque outros falam em seu lugar. Significados e interpretações hegemônicas preenchem as lacunas daquilo que não se sabe por que não há repertórios de escuta.


No ensaio publicado em 1985, Spivak dialoga e constitui as principais propostas e tendências do conhecido “Grupo de Estudos Subalternos”. Tendo como ponto de partida a compreensão da subalternidade como efeito do poder colonial, a perspectiva apresentada por intelectuais como Ranajit Guha (o principal organizador das coletâneas “Subaltern Studies: Writings on South Asian History and Society), Partha Chatterjee e Gyan Pandey, encontra em Gramsci uma referência importante, que se remente à própria origem do termo “subalterno”. Com o objetivo de questionar não só as práticas coloniais, mas a própria razão colonial, a proposta metodológica desse conjunto de autoras e autores é compreender a história a partir dos eventos de massa, das insurreições populares, abandonando uma perspectiva colonial que adota a perspectiva das elites (estrangeiras ou locais).


A conclusão do ensaio de Spivak, para muitos, soa incômoda porque parece não admitir possibilidade de reação ou resistência. No entanto, à luz das perspectivas dos estudos subalternos, podemos compreender que a autora se refere menos àqueles e àquelas aos quais seu texto parece se dirigir – aos e às subalternas – e mais aos seus pares na academia. Assim, a autora provoca seus leitores e, muito especialmente, os/as intelectuais, a adotarem um posicionamento crítico de suas próprias perspectivas, enxergando as limitações da representação, e apontando de fato para a necessidade da descolonização mesmo das mais seletas instâncias, como a academia, para que possa haver transformação social suficiente para que a subalterna possa ser ouvida e seu discurso se faça inteligível.


Como citar esse post [ISO690/2010]:

LACERDA, P. e PARREIRAS, C. Spivak e o Grupo de Estudos Subalternos. [online]. CAMPO - um podcast de antropologia, 2021 [visto em .....]. Disponível em: https://www.podcastdeantropologia.com.br/post/ep-bônus-gayatri-spivak


Referências:


GUHA, Ranajit. “Prefacio a los estúdios de la subalternidade. Escritos sobre la historia y sociedad sudasiatica”. In.: Cusicanqui, S.; Barragán, R. (Eds.) Debates Post Coloniales: uma introducción a los Estudios de la Subalternidad. La Paz: Sierpe Publicaciones, 1997. Pp. 23-24.


SPIVAK, Gayatri. “Estudios de la subalternidad: desconstruyendo la historiografia. In.: Cusicanqui, S.; Barragán, R. (Eds.) Debates Post Coloniales: uma introducción a los Estudios de la Subalternidad. La Paz: Sierpe Publicaciones, 1997. Pp. 247-278.


SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.


Créditos:

Concepção, pesquisa e apresentação: Paula Lacerda

Edição, montagem e pesquisa: Carol Parreiras

Vinheta de transição: autoria de harri, com pequena adaptação para o ep., disponível sob licença [CC], em freesound.org

Vinheta de abertura e encerramento: carloscarty, disponível sob licença [CC] em looperman.com


Acesse abaixo a transcrição deste episódio.

Transcrição_Spivak
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